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A Geometria do Afeto:Criolo, Amaro Freitas e Dino D´Santiago Unem Continentes em Álbum Histórico

por CRIAA · 16 de janeiro de 2026

Há colaborações que nascem de planilhas de marketing e há encontros que parecem ser correções de rota planejadas pela própria ancestralidade. O álbum “Criolo, Amaro & Dino”, lançado oficialmente hoje (15), pertence à segunda categoria. O projeto é o resultado orgânico de um “quase acaso” em um estúdio em Lisboa, onde o rap pedagógico de Criolo, o piano desconstrutivista de Amaro Freitas e a voz pan-africana de Dino D´Santiago colidiram para criar um território musical que não existe nos mapas, mas pulsa na memória coletiva da diáspora.

1. O Gênesis: Do WhatsApp ao Latin Grammy

Tudo começou em Lisboa, cidade que hoje funciona como o grande hub da nova música lusófona. Enquanto Criolo e Dino desenvolviam ideias, Amaro Freitas — o pianista pernambucano que está redesenhando o jazz global — apareceu no estúdio após uma mensagem despretensiosa de WhatsApp. Dessas horas de experimentação surgiu “Esperança”, faixa que não apenas antecipou o álbum, mas conquistou uma indicação ao Latin Grammy, provando que o mundo estava sedento por essa sonoridade híbrida.

O que poderia ter sido um single isolado tornou-se um “Álbum com A maiúsculo”. Gravado entre Rio de Janeiro, Recife, São Paulo e Lisboa, o disco ignora as fronteiras entre gêneros como o jazz, o funaná, o rap e a MPB para focar em algo mais urgente: a circulação de saberes afro-atlânticos.

2. Os Três Vértices do Triângulo

Para entender o peso deste disco, é preciso analisar a linhagem de seus protagonistas:

  • Criolo: O mestre de cerimônias do Grajaú traz a crônica urbana de São Paulo. Sua voz carrega a pedagogia das periferias e uma poética de resistência que se adapta tanto ao boom-bap quanto ao samba e, agora, às texturas experimentais de Amaro.
  • Dino d’Santiago: O algarvio com sangue cabo-verdiano é o responsável por colocar o batuku e o funaná no centro do pop europeu contemporâneo. Ele traz a espiritualidade e o balanço das ilhas, conectando a Europa à África através de Portugal.
  • Amaro Freitas: O prodígio de Pernambuco usa o piano como um instrumento de percussão, bebendo do frevo, do maracatu e do baião. Amaro não apenas toca; ele reinventa o espaço sonoro, desafiando a lógica eurocêntrica do piano erudito.

3. Faixa a Faixa: Crônicas e Beats Ancestrais

O álbum abre portais em cada composição. Em “E Se Livros Fossem Líquidos?”, a verve política de Criolo se derrama em metáforas sobre o poder da educação e da escrita. Já em “Você Não Me Quis”, o trio recebe as Clarianas, unindo o coro feminino ancestral ao groove contemporâneo.

Um dos momentos mais potentes é “Seka”. Aqui, o batuku — ritmo nascido da resistência das mulheres cabo-verdianas — serve como base para uma celebração da abundância. É música que nasce do corpo, do bater das palmas nas coxas, traduzida para o piano percussivo de Amaro.

Em “Amazônia”, o disco assume uma postura de urgência global. Sobre uma base que remete ao jazz-funk de Azymuth e ao groove de J Dilla, Criolo critica a indignação seletiva do mundo: “Corre, acorde ali tá pegando fogo… não é só L.A. que tá pegando fogo”. A letra aproxima o colapso climático da Califórnia ao da Amazônia, lembrando que a crise ambiental é uma fronteira que todos compartilhamos.

4. A Música como Lugar de Reparação

A colaboração, curada por textos de Kalaf Epalanga, deixa claro que a música negra não é um gênero, mas uma conversa permanente sobre liberdade. O álbum utiliza instrumentos como a rabeca e o piano para costurar as margens do oceano, criando uma “topografia emocional” do Atlântico Negro.

Os sopros de Henrique Albino e os beats assinados por nomes como Holly e Seiji garantem que o disco soe atual, mas sem perder o vínculo com o que é eterno. Dino d’Santiago sintetiza a alma do projeto na faixa “No Vento de Nós”: “Se o futuro é uma pergunta, eu respondo com o mar”. É uma referência à Kalunga, a linha mística que une vivos e ancestrais, e que agora une esses três artistas em uma obra definitiva.

Conclusão: Um Novo Marco na Música Lusófona

“Criolo, Amaro & Dino” é um lembrete de que a esperança ainda pode soar verdadeira quando é fundamentada na verdade e na coragem artística. O disco não pede licença para entrar nos mercados europeu ou americano; ele cria seu próprio centro gravitacional. É um álbum que não esconde cicatrizes, mas que olha para o futuro com a certeza de que a união de culturas é a única tecnologia capaz de curar as fraturas da história.

Escutar este trabalho na ordem proposta é fazer uma viagem de volta para casa — uma casa que fica em algum lugar entre Recife, Praia e o Grajaú.

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