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Em FUNK

Tati Quebra Barraco expõe crise de direitos autorais e une veteranos contra “sistema explorador”

por CRIAA · 17 de março de 2026

Em um desabafo histórico, a pioneira do funk carioca acusa grandes produtores de retenção de royalties e recebe apoio das famílias de Mr. Catra, MC Marcinho e do cantor Buchecha. O caso levanta debates sobre contratos abusivos e o uso de Inteligência Artificial.

Por Redação | 17 de março de 2026

O universo do funk carioca atravessa uma de suas maiores crises institucionais. O que começou como um desabafo nas redes sociais da cantora Tati Quebra Barraco no último final de semana (14 e 15 de março) evoluiu para um movimento de proporções jurídicas e políticas que envolve os maiores nomes da história do gênero. A artista denunciou publicamente o que classifica como um “massacre” profissional, revelando que, após décadas de carreira, continua sendo privada dos lucros de seus maiores sucessos.

O “Exposed”: De Barraco II a Boladona

Aos 46 anos, Tati Quebra Barraco decidiu romper o silêncio sobre a gestão de sua obra. Em vídeos publicados no Instagram, a MC afirmou que sucessos como “Barraco II” e “Bota na Boca, Bota na Cara” continuam gerando rendimentos para terceiros, enquanto ela, na condição de autora das letras, permanece excluída dos fluxos financeiros.

“Eu tinha apenas 17 anos, era ingênua e fui passada para trás”, declarou a artista. O alvo principal das críticas de Tati foram as práticas de registro da Furacão 2000 e o controle editorial exercido pelo DJ Marlboro (Link Record) sobre o hit “Boladona”. Segundo a cantora, Marlboro a impede de licenciar a música para campanhas publicitárias, o que tem gerado prejuízos financeiros massivos.

Dennis DJ e o “Mea Culpa” da era Furacão 2000

Um dos nomes citados por Tati foi o de Dennis DJ, que estaria recebendo royalties por “Barraco II”. Dennis prontamente se manifestou, adotando uma postura conciliadora. O produtor explicou que, na época da Furacão 2000, os registros eram “bagunçados” e que ele próprio, então com 16 anos, não entendia nada de direitos autorais.

Dennis revelou que já buscou regularizar os créditos junto à União Brasileira de Compositores (UBC) em 2020 e se comprometeu a devolver quaisquer valores recebidos indevidamente. “Estou do seu lado, Tati”, afirmou o DJ, sublinhando que o problema reside no modelo de negócio centralizador adotado pelas grandes equipes de som nos anos 90 e 2000.

A “Coalizão dos Veteranos”: Catra, Marcinho e Buchecha

A denúncia de Tati serviu como catalisador para que outros artistas e herdeiros expusessem feridas abertas. A família de Mr. Catra emitiu um comunicado contundente nesta segunda-feira (16), afirmando que empresas como Link Record, Furacão 2000, Warner Music e Galerão Record nunca prestaram contas ou fizeram repasses financeiros adequados desde a morte do cantor em 2018.

Os herdeiros de MC Marcinho (falecido em 2023) também manifestaram solidariedade, revelando um episódio dramático: o “Príncipe do Funk” teria morrido sem conseguir realizar o sonho de gravar seu DVD de 30 anos porque não possuía autorização das editoras para regravar suas próprias composições.

O cantor Buchecha também se uniu ao movimento, afirmando que a discussão “precisava vir à tona”. Vítima de situações semelhantes no passado, Buchecha propôs uma reforma no setor, sugerindo que os artistas fiquem com 70% dos direitos e as editoras com apenas 30% — uma inversão do cenário atual.

Inteligência Artificial e Novos Conflitos

Além dos royalties antigos, o embate com DJ Marlboro ganhou um contorno tecnológico. Tati denunciou o uso não autorizado de sua voz e imagem em clipes gerados por Inteligência Artificial (IA) lançados no canal do DJ em janeiro de 2026. A defesa da artista sustenta que a voz é um atributo da personalidade e não pode ser replicada sinteticamente para fins comerciais sem consentimento prévio.

Este conflito específico impulsionou a tramitação do PL 4025/23 na Câmara dos Deputados. O projeto, que já recebeu parecer favorável na Comissão de Cultura, visa exigir autorização expressa e remuneração para o uso de réplicas digitais de artistas em sistemas de IA.

O que dizem as empresas?

  • Furacão 2000: Historicamente comandada por Rômulo Costa, a produtora ainda não emitiu uma nota oficial sobre as novas acusações, embora Tati tenha ressaltado que mantém uma relação de “paz e amor” com a marca, focando sua luta na recuperação dos direitos autorais retidos por terceiros.
  • DJ Marlboro / Link Record: Até o momento, o DJ não respondeu diretamente às acusações de Tati sobre o bloqueio de publicidade e o uso de IA, mantendo o foco na promoção de seu catálogo histórico.

O Futuro do Funk “Raiz”

O movimento liderado por Tati Quebra Barraco é visto por especialistas como o início de uma auditoria histórica no funk carioca. Artistas veteranos buscam agora não apenas a reparação financeira, mas o reconhecimento da autoria preta e periférica que sustentou a indústria por décadas. Com o apoio de associações como a UBC e a pressão legislativa sobre a IA, o caso promete mudar definitivamente a forma como o funk faz negócios no Brasil.

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