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Em RAP

Bface apresenta “NIGREDO”, EP sobre transformação, autonomia e permanência artística

por Joaozinhocwbeats · 14 de setembro de 2026

O rapper, produtor musical e DJ curitibano Bface apresenta “NIGREDO”, EP de cinco faixas que marca o encerramento de um ciclo iniciado em Gradientes (2018). Com aproximadamente 10 minutos de duração, o projeto reúne experiências, frustrações e reflexões acumuladas ao longo da trajetória do artista, passando também por trabalhos como Egoritmos (2021) e Paciência (2024).

O título faz referência à Nigredo, primeiro estágio da alquimia, associado à decomposição e dissolução da matéria. No trabalho, o conceito funciona como metáfora para um período de transformação na vida e na produção artística de Bface. Em vez de esconder ou purificar as experiências acumuladas, o artista as utiliza como matéria-prima para criar.

Mais introspectivo e direto que seus trabalhos anteriores, “NIGREDO” aborda temas como frustração, identidade, relações interpessoais, espiritualidade, cultura Hip Hop e o desafio de permanecer produzindo de forma independente em Curitiba.

A cidade ocupa um papel importante no EP, refletindo a experiência de Bface na construção da cena independente local, entre música, eventos, produção e cultura Hip Hop. A questão do reconhecimento também aparece no projeto, mas sem transformar a obra em uma narrativa de ressentimento. O artista desloca a discussão para dentro, questionando ideias recorrentes no rap contemporâneo, como vitória permanente, meritocracia, ostentação e controle absoluto da própria trajetória.

Rap, soul, jazz e MPB

Na sonoridade, “NIGREDO” aproxima o rap de elementos de soul, jazz e MPB, principalmente através de samples, colagens e texturas. A produção aposta em uma estética quente, saturada e orgânica, criando uma atmosfera que acompanha a ideia de matéria em transformação.

Os samples vocais também assumem uma função conceitual no projeto, funcionando como uma espécie de representação das “vozes da cabeça” e da consciência inquieta do artista. As quatro primeiras faixas são produzidas pelo próprio Bface. A exceção é “Deixa Eu Fazer Meu Som”, construída sobre um beat do produtor LYONe.

As cinco faixas de “NIGREDO”

O projeto começa com “Toni Tornado”, faixa que apresenta a ideia de transformação através de jogos de palavras, referências à cultura negra e uma reflexão sobre jogar o jogo, seja como jogador ou como quem aposta. O título também evoca a longevidade e resistência de Toni Tornado.

Em “Copo de Veneno”, Bface aborda de maneira mais direta sua relação com Curitiba e as tensões de ser um artista negro no Sul. Humor, observação social e amargura se misturam em uma faixa que transforma experiências cotidianas em matéria para a escrita.

“Ritual” aproxima espiritualidade e processo criativo. Magia, família, escrita e rap aparecem conectados à ideia de criação como uma prática cotidiana de transformação, construída pela experiência e pelo próprio ato de produzir.

Já “NOIR FREEVERSE” transita por referências artísticas, identidade, memória e trajetória. A faixa funciona também como uma afirmação de permanência e de liberdade para registrar a própria existência sem depender da autorização ou validação de terceiros.

Fechando o EP, “Deixa Eu Fazer Meu Som” sintetiza uma das principais ideias do projeto: continuar criando. Com produção de LYONe, a faixa aborda a relação de Bface com Curitiba, o underground e seu próprio legado, funcionando como uma declaração de independência artística. Todos sons foi mixado pelo próprio Bface, mas contou com revisão e Master do Zak Beatz.

Mais do que uma conclusão, “NIGREDO” representa para Bface a possibilidade de transformar aquilo que não encontrou resolução fora da música. Escrever, produzir, rimar e permanecer tornam-se, no EP, formas de atravessar a própria experiência e seguir em movimento, vale a pena a escuta. Foto: Maycon Cavalcante

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