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Como os super shoes transformaram a corrida para sempre

por CRIAA · 17 de agosto de 2026

Espumas ultrarresponsivas, placas de carbono e entressolas mais altas ajudaram a transformar os tênis de corrida em protagonistas da evolução dos recordes.

A corrida de rua nunca mais foi a mesma depois da chegada dos super shoes.

A combinação entre espumas extremamente leves, placas rígidas e entressolas de alto volume transformou a maneira como os atletas correm, treinam e competem. Em poucos anos, os tênis passaram de equipamentos de suporte a elementos decisivos na busca por recordes.

O impacto dessa tecnologia ficou evidente na Maratona de Londres. Em uma edição histórica, Sabastian Sawe tornou-se o primeiro atleta a completar uma maratona reconhecida pela World Athletics em menos de duas horas, com o tempo de 1h59min30s.

Pouco depois, Yomif Kejelcha cruzou a linha de chegada em 1h59min41s, também abaixo da marca de duas horas. O terceiro colocado, Jacob Kiplimo, registrou 2h00min28s, superando o recorde anterior de Kelvin Kiptum.

Na prova feminina, Tigst Assefa também reduziu seu próprio recorde em uma maratona sem coelhos, estabelecendo a marca de 2h15min41s.

Os três atletas competem com a adidas e utilizaram o Adizero Adios Pro Evo 3, modelo que se tornou o primeiro super shoe com menos de 100 gramas — aproximadamente 97 g — graças à substituição da placa tradicional por uma tecnologia de carbono que envolve a estrutura do tênis.

O projeto Breaking2 da Nike

A revolução dos super shoes ganhou força em dezembro de 2016, quando a Nike apresentou o Breaking2, projeto criado para tentar levar um atleta a completar uma maratona em menos de duas horas.

Na época, o recorde mundial masculino pertencia a Dennis Kimetto, com 2h02min57s. A missão exigia uma melhora de aproximadamente 2,5% em relação à melhor marca existente, algo considerado improvável para uma única prova.

A Nike analisou centenas de atletas patrocinados e selecionou corredores capazes de completar uma maratona abaixo de 2h05 ou uma meia maratona em menos de uma hora.

Os escolhidos foram:

  • Eliud Kipchoge;
  • Lelisa Desisa;
  • Zersenay Tadese.

Kipchoge e Desisa já eram nomes consagrados, enquanto Tadese foi escolhido por apresentar um consumo de energia excepcionalmente baixo durante a corrida.

Além da seleção dos atletas, a Nike planejou cuidadosamente o percurso, a nutrição, a hidratação, o clima e a estratégia de ritmo.

Monza ficou a um passo da história

O circuito de Monza, na Itália, foi escolhido como palco da tentativa. O local apresentava baixa variação de elevação, condições climáticas favoráveis, umidade controlada e altitude considerada adequada para a respiração dos corredores.

Durante um teste de meia maratona, Kipchoge marcou 59min19s, confirmando que a estratégia poderia funcionar.

A tentativa oficial aconteceu em maio de 2017. Kipchoge completou a distância em 2h00min25s, ficando a apenas 25 segundos da marca histórica.

A prova utilizou pacers em revezamento, formação aerodinâmica e um carro guiando o grupo. As condições controladas ajudaram o atleta, mas também fizeram com que a marca não fosse reconhecida oficialmente pela World Athletics.

O sub-2 de Kipchoge em Viena

Dois anos depois, Kipchoge voltou a tentar quebrar a barreira das duas horas no Ineos 1:59 Challenge, em Viena.

A estrutura repetiu alguns elementos do projeto de Monza, como os pacers em rotação e o controle de ritmo. A estratégia também incluiu ciclistas responsáveis por entregar hidratação ao corredor.

Dessa vez, o público estava presente, e Kipchoge cruzou a linha em 1h59min40s2.

Apesar da importância histórica, o tempo também não foi homologado como recorde oficial, devido às condições especiais da prova e ao uso de estratégias que não fazem parte de uma maratona tradicional.

A tecnologia por trás dos super shoes

O que diferenciou os primeiros super shoes foi a combinação entre uma espuma proprietária de alto retorno de energia e uma placa de fibra de carbono inserida na entressola.

A Nike utilizou a espuma ZoomX, produzida principalmente a partir de Pebax. O material era leve, elástico e permitia a criação de entressolas mais altas sem aumentar excessivamente o peso do tênis.

A placa de carbono, por sua vez, podia ser moldada e posicionada de forma estratégica. Sua curvatura ajudava a reduzir a carga sobre a panturrilha e direcionava a energia para a região do dedão durante a saída da passada.

O resultado reunia:

  • Maior amortecimento;
  • Retorno de energia elevado;
  • Menor peso;
  • Redução do esforço muscular;
  • Transição mais rápida;
  • Sensação de propulsão.

Foi essa combinação que deu origem ao Zoom Vaporfly, modelo que alterou o mercado e iniciou uma corrida tecnológica entre as principais marcas esportivas.

Os ganhos são reais?

O nome Vaporfly 4% fazia referência à economia de corrida proporcionada pelo modelo, e não a um aumento direto de 4% na velocidade.

Segundo testes de laboratório divulgados pela Nike, atletas poderiam economizar aproximadamente 4,2% de energia durante a corrida. Em uma maratona, isso representaria uma possível redução de cerca de dois minutos e meio.

Estudos posteriores analisaram os resultados dos principais maratonistas entre 2010 e 2019 e encontraram melhora significativa nas performances após a chegada dos super shoes.

Em 2019, quando a presença da tecnologia entre os atletas de elite atingiu seu maior nível, corredores utilizando modelos da categoria registraram tempos médios melhores do que aqueles observados antes da popularização das placas e espumas avançadas.

Naquele mesmo período, os super shoes passaram a dominar os pódios das principais maratonas do mundo.

Uma nova era de recordes

O impacto da tecnologia pôde ser percebido em diferentes recordes.

Brigid Kosgei estabeleceu o recorde mundial feminino em 2019, completando a Maratona de Chicago em 2h14min04s com um protótipo da Nike.

Anos depois, Ruth Chepngetich tornou-se a primeira mulher a correr uma maratona abaixo de 2h10, também em Chicago, com o tempo de 2h09min56s.

No masculino, Kelvin Kiptum estabeleceu o recorde mundial antes da atual marca de Londres, utilizando um modelo da Nike.

A adidas também entrou de vez nessa disputa com a família Adizero Adios Pro, culminando no Adios Pro Evo 3, que combina peso extremamente reduzido e tecnologias de retorno de energia.

O debate sobre as regras

A evolução dos super shoes também obrigou as entidades esportivas a revisar seus regulamentos.

Em 2020, a World Athletics estabeleceu regras para limitar a altura das entressolas, a quantidade de placas rígidas e o acesso a modelos considerados exclusivos.

Entre as normas, os tênis aprovados para competição passaram a precisar:

  • Ter sola com espessura máxima de 40 mm;
  • Utilizar no máximo uma placa rígida;
  • Estar disponíveis comercialmente ao público;
  • Ser lançados com antecedência mínima para evitar que protótipos exclusivos decidam provas oficiais.

O objetivo foi impedir que atletas competissem com modelos inacessíveis ao restante do pelotão.

A discussão continua porque a fronteira entre inovação e vantagem tecnológica permanece difícil de definir. Afinal, todos os esportes evoluem com novos materiais, mas nem toda tecnologia é considerada aceitável quando altera diretamente a performance.

O futuro da corrida

Os super shoes não eliminaram o talento, o treinamento ou a estratégia. Mas mudaram o modo como esses elementos se combinam.

Hoje, um atleta de elite precisa escolher não apenas o percurso, o ritmo e a alimentação, mas também a espuma, a geometria, a rigidez e o peso do tênis que utilizará.

A corrida entrou em uma nova fase, na qual o equipamento passou a fazer parte da estratégia competitiva.

Dos laboratórios da Nike ao sub-2 de Kipchoge, os super shoes transformaram o tênis de corrida em uma das ferramentas mais importantes da história moderna da maratona.

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