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O Arquiteto do Manto: A Jornada de Drake Ramberg, dos Ícones da Nike nos Anos 90 à Colaboração Global com NOCTA e Venezia FC

por CRIAA · 15 de janeiro de 2026

O futebol moderno vive uma obsessão estética. Hoje, camisas de times são desfiladas em semanas de moda em Paris, esgotam em segundos no mercado de revenda e servem como o uniforme oficial da cultura urbana global. Mas, para entender como chegamos aqui, é preciso olhar para o trabalho de um homem que, nos anos 90, decidiu que jogadores de futebol não eram apenas atletas — eles eram super-heróis. E super-heróis precisam de uniformes que contem histórias. Esse homem é Drake Ramberg.

Nascido no Oregon, coração pulsante da Nike, Ramberg passou quase três décadas moldando o DNA visual da marca do Swoosh. Recentemente, ele voltou aos holofotes ao assinar o quarto uniforme do Venezia FC em uma colaboração tripla com a NOCTA, label de lifestyle de seu xará, o rapper Drake. O resultado é mais do que uma peça de roupa; é um testemunho da longevidade de um designer que nunca parou de ver a camisa como uma tela em branco.

1. O Início da Era de Ouro: A Nike Invade o Mundo

Quando Drake Ramberg entrou na Nike, no início dos anos 1990, a marca ainda era uma “intrusa” no futebol global, que era dominado por gigantes europeias. O clima na sede em Beaverton era de experimentação absoluta. Ramberg, formado em Belas Artes, trouxe uma sensibilidade que o design esportivo tradicional raramente via.

Naquela época, a liberdade criativa era a regra. Ramberg e sua equipe foram incentivados a hackear as ferramentas, a desenhar à mão e a buscar texturas que transmitissem movimento. Foi nesse período que surgiram as tramas em jacquard, os contrastes entre fosco e brilho e os grafismos que pareciam saltar do tecido. Ele não estava apenas desenhando uma vestimenta técnica; ele estava criando artefatos culturais.

2. O Arsenal e o Raio que Mudou Tudo

Como torcedor fervoroso do Arsenal FC, Ramberg teve a oportunidade que todo fã sonha: desenhar a pele do seu próprio clube. O resultado foi a lendária camisa “Lightning Bolt” da temporada 1994/95.

Enquanto a tradição pedia algo estático, Ramberg trouxe o dinamismo. “Eu queria representar o Arsenal de uma forma mais ousada e dinâmica do que um canhão estático”, explica ele. O padrão de raios azuis tornou-se um dos visuais mais memoráveis da história da Premier League e hoje é uma das peças mais raras e caras no mercado de vintage football shirts. Ali, ele provou que era possível mexer na tradição sem desrespeitá-la, desde que houvesse uma narrativa verdadeira por trás.

3. A Redefinição das Nações: Itália e Nigéria

Em 1995, Ramberg recebeu a missão de redesenhar a camisa da Seleção Italiana. Para um país que respira moda e tradição, o desafio era imenso. Ele trouxe uma elegância minimalista que respeitava a Azzurra, mas com detalhes técnicos que olhavam para o futuro.

No ano seguinte, em 1996, ele criou o que muitos consideram o ápice do design de seleções africanas: o uniforme da Nigéria. Um verde vibrante, com grafismos laterais que pareciam as asas de uma águia em pleno voo. Lançada no momento em que os Super Eagles conquistavam o ouro olímpico e assombravam o mundo, a camisa tornou-se um símbolo de chegada e poder. Trinta anos depois, o carinho por essa era continua imenso devido à força gráfica que Ramberg imprimiu.

4. O Projeto Venezia FC x NOCTA: O Retorno à Itália

Veneza é uma cidade que vive entre o passado glorioso e a vanguarda artística. Para o quarto uniforme do clube em 2026, Ramberg mergulhou na iconografia local. O Leão Alado de São Marcos, símbolo de poder e proteção presente em cada esquina da cidade, foi o ponto de partida.

“Onde quer que você olhe em Veneza, tem esse motivo do leão. Eu queria trazê-lo para o uniforme de um jeito cool”, afirma o designer. A colaboração com a NOCTA trouxe o peso do streetwear moderno de Drake (o rapper), mas a alma da camisa veio da filosofia de Ramberg: autenticidade ao território. A peça equilibra a arquitetura veneziana com a estética limpa e luxuosa da NOCTA, provando que o design atemporal nasce quando se entende a identidade de uma cultura.

5. Filosofia e Processo: O Design Feito à Mão

Apesar da revolução digital e da inteligência artificial, Ramberg é um defensor ferrenho do toque humano. Ele ainda começa cada projeto com esboços manuais. Para ele, “hackear” as ferramentas e pintar ou desenhar é o que permite transmitir a verdadeira essência de uma ideia.

Sua regra para um uniforme resistir ao tempo é simples: fale a verdade. * Não tente ser apenas “trendy”: Tendências morrem rápido.

  • Seja autêntico ao clube: Torcedores sentem quando o design é feito por quem entende a cultura deles.
  • Jogadores são heróis: Se eles são as estrelas do espetáculo, seus uniformes devem ser épicos.

6. O Ciclo se Fecha: Rumo à Copa de 2026

À medida que a Copa do Mundo de 2026 se aproxima do solo americano, o legado de Drake Ramberg completa um ciclo. Ele viu o futebol nos EUA florescer desde a Copa de 94, onde ajudou a Nike a se consolidar. Agora, ele vê suas criações dos anos 90 sendo tratadas como relíquias sagradas por uma nova geração que busca a “força gráfica” que ele ajudou a criar.

Ramberg brinca sobre seu xará canadense, dizendo que ele é o “OG” (Original Gangster) por ser mais velho, mas a verdade é que ambos compartilham a mesma habilidade de entender o zeitgeist — o espírito do tempo. O trabalho de Ramberg ressoa hoje não porque ele seguiu a moda, mas porque ele colocou o futebol e sua carga emocional em primeiro lugar.

Conclusão: O Atemporal é Eterno

No final das contas, o design de Drake Ramberg nos lembra que uma camisa de futebol é muito mais do que poliéster. É uma bandeira, uma armadura e uma página de história. Seja no norte de Londres com o Arsenal, nas ruas de Veneza com a NOCTA ou nos gramados da Nigéria, Ramberg ensinou ao mundo que o melhor design é aquele que, décadas depois, ainda faz o coração do torcedor bater mais forte. Porque o futebol, assim como a grande arte, é atemporal.

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