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Roots Picnic: uma celebração da música negra no coração da Filadélfia

por Rapgol · 31 de maio de 2026

Nosso amigo, Thiago Malakai, acompanhou de perto a apresentação histórica do Jay-Z e estamos reproduzindo na integra o texto que nos foi enviado.

O dia começou levemente ensolarado. Um frio agradável tomava conta da Filadélfia. A cidade, extremamente arborizada, cria uma sensação curiosa: onde há sombra, o frio permanece firme; quando o sol aparece, uma leve camada de calor toma conta do ambiente.

Cheguei à cidade poucas horas antes do festival. A fome acabou me atrasando um pouco, mas olhando agora, posso dizer que cheguei exatamente para a melhor parte da festa.

À medida que me aproximava do Belmont Plateau, comecei a perceber a dimensão real do evento. O trânsito já estava formado, pessoas caminhavam apressadas tentando chegar ao festival, enquanto outras pareciam aproveitar cada minuto daquele encontro anual.

Logo na entrada ficou claro que aquilo não era apenas um festival. Era realmente um grande piquenique coletivo. Famílias inteiras carregavam toalhas para sentar na grama. Casais, amigos e comunidades inteiras ocupavam o espaço como quem participa de uma tradição antiga.

Havia pessoas de todas as idades. De adolescentes vivendo aquele momento pela primeira vez até senhores e senhoras que claramente acompanham o festival há anos. Era impossível não sentir que aquele encontro carregava algo maior do que apenas música.

Uma das grandes apresentações da tarde ficou por conta de Brandy. Com a mesma elegância e potência vocal que marcaram sua carreira, ela emocionou o público revisitando clássicos como The Boy Is Mine, Have You Ever? e I Wanna Be Down.

Seu show foi daqueles que atravessam gerações. Ao mesmo tempo em que emocionava quem cresceu ouvindo seus discos, mostrava para os mais jovens por que ela continua sendo uma das vozes mais importantes do R&B.

Enquanto o palco principal se preparava para o espetáculo da noite, quem segurava a energia da multidão era DJ Diamond Kuts.

Com uma seleção impecável, ela transformou o intervalo entre os shows em uma verdadeira celebração. Misturando clássicos do hip-hop, R&B e sucessos que atravessam gerações, conseguiu manter milhares de pessoas conectadas ao festival enquanto a noite tomava conta da Filadélfia.

Não era apenas música tocando entre uma atração e outra. Era parte da experiência.

Foi ao som de Diamond Kuts que o público foi se aproximando cada vez mais do palco principal, preparando o terreno para o momento mais aguardado da noite.

Já eram quase 9 horas.

A lua pairava sobre o parque de forma perfeita. Parecia um enorme bolo de fubá suspenso no céu da Filadélfia.

Foi então que aconteceu.

De repente, tudo se apagou.

Um ruído.

Silêncio.

A banda começa.

Para.

Como se alguma peça ainda precisasse ser ajustada.

Alguns segundos depois, lá está ele: Ahmir “Questlove” Thompson.

Ao lado da lendária banda The Roots, ele conduz o que viria a ser um dos momentos mais especiais daquela noite.

E então surge Jay-Z.

Sem cerimônia.

Sem aviso.

Sem poupar energia.

Ele simplesmente toma conta do palco.

Ao lado de Black Thought e da força musical do The Roots, o espetáculo ganha proporções históricas.

Jay-Z estava em estado de excelência.

Muito além da performance musical, ele utilizou o palco para apresentar sua visão sobre alguns acontecimentos recentes, transformando a música em reflexão sem perder a força do entretenimento.

Em vários momentos, parecia responder ao mundo através das próprias canções.

Concordando ou não com tudo o que foi dito, uma coisa era impossível negar: Jay-Z continua sendo um artista que entende o peso que um palco tem.

Ele não sobe para cantar apenas seus sucessos.

Ele sobe para apresentar sua visão de mundo.

Uma música atrás da outra.

Uma rima atrás da outra.

Uma presença absurda.

O mais impressionante era perceber que, mesmo depois de décadas de carreira, ele não demonstrava nostalgia. Pelo contrário. Parecia um artista completamente consciente do próprio legado, mas ainda disposto a construir novos capítulos.

Quando o show terminou, a impressão que ficou era estranha.

Parecia que ninguém queria ir embora.

Parecia que eu ainda não tinha acordado.

Como se meu cérebro ainda estivesse tentando entender tudo o que tinha acabado de presenciar.

Resumindo?

Foi muito foda.

Muito foda mesmo.

E talvez a maior celebração daquela noite tenha sido perceber que Questlove conseguiu construir algo muito maior do que um festival.

O Roots Picnic não é apenas uma sequência de shows.

É uma reunião de famílias, gerações e comunidades inteiras em torno da música negra.

Um encontro criado pelo The Roots que, por alguns dias, transforma a Filadélfia no centro do universo musical.

Por algumas horas, naquele gramado do Belmont Plateau, parecia que o mundo inteiro estava reunido no mesmo lugar.

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